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     Ao sabor do pensamento
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Blog EntryMay 6, '12 9:24 AM
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Mãe...



Se ao amar me permitisse
E o coração abrisse

Se ao beijar me acalmasse
Ante o pranto cessasse...

Se ao calar me silenciasse
Ante o outro que falasse

Se ao doar me ensinasse
E a solidariedade despertasse...

Se ao estudar me estimulasse
E o conhecimento transformasse

Se ao falar me orientasse
Ante a palavra ecoasse...

Se ao gostar me convidasse
Ante a dança vital bailasse

Se ao harmonizar me tocasse
E a música acalentasse...

Se ao irradiar me iluminasse
E a caminhada prosseguisse

Se ao julgar me fizesse
Ante o grito da justiça clamasse...

Se ao lembrar me sensibilizasse
Ante a chama da sabedoria inclinasse

Se ao meditar me silenciasse
E a fé buscasse...

Se ao notar me sentisse
Ante a dor enfrentasse

Se ao ouvir me demonstrasse
E a acolhida estimulasse...

Se ao perecer me deixasse
E a semente continuasse

Se ao quiser me desejasse
Ante a flor colhesse...

Se ao recomeçar me estimulasse
Ante a chama vital renovar-se

Se ao sofrer me inquietasse
E a dor do mundo enfrentasse...

Se ao sorrir me mostrasse
Ante a emoção da vida expandisse

Se ao tocar me permitisse
E o sentido de humanidade percebesse

Se ao ungir me purificasse
E ao espírito de luz levasse

Se ao verter me irrigasse
Ante as lágrimas o amor transbordasse

Se ao xingar me apontasse
Ante os dramas mundanos blasfemasse

Se ao zelar me protegesse
Ante os infortúnios o desafio enfrentasse.

Alberto Araújo


Blog EntryMay 1, '12 1:52 PM
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É preciso viver em pleno

 

Se pudéssemos ter consciência da importância da nossa vida, talvez pensássemos duas vezes antes de deitar fora as oportunidades que temos de ser e de fazer os outros felizes.

Muitas flores são colhidas cedo demais. Algumas, mesmo ainda em botão. Há sementes que nunca brotam e há aquelas flores que vivem a vida inteira até que, pétala por pétala, tranquilas, vividas, se entregam ao vento.

Mas não podemos adivinhar. Ninguém sabe por quanto tempo estará enfeitando este Éden, e tão pouco aquelas flores que foram plantadas à nossa volta. E descuidamo-nos. Cuidamos pouco de nós, dos outros.

Entristecemo-nos por coisas pequenas e perdemos minutos e horas preciosos. Perdemos dias, às vezes anos.

Calamo-nos quando deveríamos falar; falamos demais quando deveríamos ficar em silêncio.

Não damos o abraço que tanto a nossa alma pede porque algo em nós impede essa aproximação.

Não damos um beijo carinhoso, porque não estamos acostumados a  isso e não dizemos que gostamos porque achamos que o outro sabe automaticamente o que sentimos.

E passa a noite e chega o dia, o sol nasce e adormece e continuamos os mesmos, fechados em nós próprios.

Reclamamos do que não temos, ou pensamos que não temos o suficiente.

Cobramos, dos outros, da vida e de nós próprios.

Consumimo-nos. Acostumamo-nos a comparar as nossas vidas com as daqueles que possuem mais que nós.

E se experimentássemos comparar a nossa vida com aqueles que possuem menos? Isso faria uma grande diferença.

E o tempo passa...

Passamos pela vida, não vivemos, limitamo-nos a sobreviver, porque não sabemos fazer outra coisa.

Até que, inesperadamente, acordamos e olhamos pra trás. E então perguntamos: E agora?

Agora, hoje, ainda é tempo de reconstruir alguma coisa, de dar o abraço apertado, de dizer uma palavra carinhosa, de agradecer pelo que temos.

Nunca se é velho demais ou jovem demais para amar, dizer uma palavra gentil ou fazer um gesto carinhoso.

Não olhes para trás. O que passou, passou.

O que perdemos, perdemos.

Olha para frente e vive!

 


Blog EntryMay 1, '12 9:34 AM
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ABRAÇO AMIGO

 
 
Aproxime-se mais.
Tente sentir do que um abraço é capaz.

Quando bem apertado,
ele ampara tristezas,
sustenta lágrimas,
combate incertezas,
põe a nostalgia de lado.
É até capaz de amenizar o medo.

Se for cheio de ternura,
ele guarda segredos,
e jura cumplicidade.

Um abraço amigo de verdade
divide alegrias
e se apraz em comemorações.

Abraços são pequenas orações
de fé, de força e energia.

Olhe para o lado:
há sempre alguém que quer ser abraçado
e não tem coragem de dizer.

Enlace-o.
O pior que pode acontecer
é ganhar de volta um sorriso de carinho,
ou, quem sabe, uma palavra sincera.

Você vai descobrir que ninguém está sozinho
e que a vida pode ser um eterno céu de Primavera.

Autor desconhecido
 
 
 

Blog EntryApr 21, '12 8:29 PM
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Cântico da Terra



Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


Cora Coralina
(Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas)
1889/1985, de Goiás



Blog EntryApr 13, '12 6:02 AM
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Contratados

 

 

Longa fila de carregadores

domina a estrada

com os passos rápidos

Sobre o dorso

Levam pesadas cargas

Vão

olhares longínquos

corações medrosos

braços fortes

sorrisos profundos como águas profundas

Largos meses os separam dos seus

e vão cheios de saudades

e de receio

mas cantam

Fatigados

esgotados de trabalhos

mas cantam

Cheios de injustiças

Caladas no imo das suas almas

e cantam

Com gritos de protesto

mergulhados na lágrimas do coração

e cantam

Lá vão

perdem-se na distância

na distância se perdem os seus cantos tristes

Ah!

e cantam...

 Agostinho Neto

 


Blog EntryApr 8, '12 5:58 PM
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À sepultura de um escravo

(Mercado de escravos-Lagos)

Também do escravo a humilde sepultura
Um gemido merece de saudade:
Uma lágrima só corra sobre ela
De compaixão ao menos....
Filho da África, enfim livre dos ferros
Tu dormes sossegado o eterno sono
Debaixo dessa terra que regaste
De prantos e suores.

Certo, mais doce te seria agora
Jazer no meio lá dos teus desertos
À sombra da palmeira, não faltara
Piedoso orvalho de saudosos olhos
Que te regasse a campa;
Lá muita vez, em noites d'alva lua,
Canção chorosa, que ao tanger monótono
De rude lira teus irmãos entoam,
Teus manes acordara:
Mas aqui - tu aí jazes como a folha
Que caiu na poeira do caminho,
Calcada sob os pés indiferentes
Do viajor que passa.

Porém que importa - se repouso achaste,
Que em vão buscavas neste vale escuro,
Fértil de pranto e dores;
Que importa - se não há sobre esta terra
Para o infeliz asilo sossegado?
A terra é só do rico e poderoso,
E desses idolos que a fortuna incensa,
E que, ébrios de orgulho,
Passam, sem ver que co 'as velozes rodas
Seu carro d'ouro esmaga um mendigante
No lodo do caminho !...
Mas o céu é daquele que na vida
Sob o peso da cruz passa gemendo;
É de quem sobre as chagas do inditoso
Derrama o doce bálsamo das lágrimas;
E do órfão infeliz, do ancião pesado,
Que da indigência no bordão se arrima;
do pobre cativo, que em trabalhos
No rude afã exala o alento extremo;
— O céu é da inocência e da virtude,
O céu é do infortúnio.

Repousa agora em paz, fiel escravo,
Que na campa quebraste os ferros teus,
No seio dessa terra que regaste
De prantos e suores.
E vós, que vindes visitar da morte
O lúgubre aposento,
Deixai cair ao menos uma lágrima
De compaixão sobre essa humilde cova;
Aí repousa a cinza do Africano,
— O símbolo do infortúnio.

Bernardo Guimarães

in Canto da Solidão

 


Blog EntryApr 3, '12 7:39 PM
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Pedido das crianças “diferentes”

 

 

 

Ama-me,

por favor

Como eu sou…

Ama-me

como tu

gostarias que eu fosse.

Quando me concebeste…

não imaginaste

que seria assim tão duro…

entender que vim “diferente”.

Mas ama-me,

fala-me desse amor

mesmo que eu não pareça entender,

mesmo que eu fuja e me refugie

procura-me, não deixes eu me perca…

Ama-me…

Como se visses em mim

a imagem e semelhança de ti

No espelho das águas…

Não te importes

com minha falta de compreensão

treina-me para entender o mundo,

mas acima de tudo

Ama-me…

Como se eu tudo entendesse,

como se eu não fosse um peso.

Demonstra o teu amor

mesmo que eu não saiba

o significado da palavra…Deus, eu posso sentir…

E crê que nos meus sonhos

eu vejo-te e amo-te…

Não me negues esse amor

que vês para além da matéria

pois é dele que necessito…

E se nas horas que de ti eu exijo demasiado

Mesmo nas dúvidas constantes

aquelas que tu por vezes tens vontade de desistir,

por favor, não desistas

Ama-me….

 

Liê Ribeiro

(Adaptado)

 


Blog EntryApr 2, '12 7:41 PM
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De Passagem

Irmão,
Enquanto gemes,
Cresce a erva para curar-te as dores,
E enquanto dormes
A pedra te sustenta a habitação.

Enquanto te desfazes em revolta,
O verme permanece trabalhando,
Submisso ao Senhor,
No preparo do chão para que a vida não cesse.

Enquanto te confias
A impropérios da queixa,
Dispõe-se a gota d'água
A socorrer-te a sede.

Enquanto te enveredas
No labirinto imenso
Da palavra insincera ou do tempo perdido,
O minúsculo grão
Desenvolve-se, humilde,
Para atender-te a fome e ajudar-te o celeiro.
Ao redor de teus passos.
Tudo clama – "que fazes?"

Entretanto,
Guardas ouvidos surdos
E as tuas mão inertes
Rogam, em vão, o amparo
Que deviam por si mesmas,
Enriquecendo o bem para a luz imortal.

Abre o teu coração
À glória da verdade e à fonte do amor
Que dimanam sem termo
Do Coração da Vida.
Para que o Sol Divino
Encontre no teu peito
O instrumento ideal de manifestação,
Porque as bênçãos do corpo
É qual a flor da erva,
Hoje brilhando ao céu, amanhã, semimorta...

E o Pai Justo e Bondoso
Que rege o grão de pó e as estrelas suspensas
Vela, agindo conosco,
Dentro e fora de nós,
Perguntando a nós todos,
Em cessando o minuto:
- "Meu filho, que fizestes?"

Chico Xavier

(Rodrigues de Abreu)

 

 


Blog EntryMar 31, '12 4:48 PM
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Descobre a paz em ti

 

 

 

Sorri...

Mas não te escondas atrás desse sorriso...

Mostra aquilo que és, sem medo.

Existem pessoas que sonham com o teu sorriso, assim como eu.

Vive! Tenta! A vida não passa de uma tentativa.

Ama acima de tudo, ama a tudo e a todos.

Não feches os olhos para a desgraça do mundo, não ignores a fome!

Procura o que há de bom em tudo e em todos.

Não faças dos defeitos uma distância,

mas sim uma aproximação.

Aceita!

A vida, as pessoas, faz delas a tua razão de viver.

Entende!

Entende as pessoas que pensam de forma diferente, não as reproves.

Olha...

Olha á tua volta, tantos amigos...

Tu já fizeste alguém feliz hoje?

Ou fizeste alguém sofrer com o teu egoísmo?

Não corras.

Para quê tanta pressa?

Corre apenas para dentro de ti.

Sonha!

Mas não prejudiques ninguém e não transformes o teu sonho numa fuga.

Acredita! Espera!

Sempre haverá uma saída, sempre brilhará uma estrela.

Chora, luta!

Faz o que gostas, sente o que há dentro de ti.

Ouve...

Escuta o que as outras pessoas têm a dizer-te, é importante.

Sobe...

Faz dos obstáculos degraus para aquilo que tu achas supremo, mas não te esqueças daqueles que não conseguem subir a escada da vida.

Descobre…

Descobre aquilo que há de bom dentro de ti."

Charles Chaplin

 

(Adaptado)

 

 


Blog EntryMar 30, '12 5:10 PM
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Talvez

 

Talvez eu venha a envelhecer demasiado depressa.

Mas lutarei para que cada dia tenha valido a pena.


Talvez eu sofra inúmeras desilusões no decorrer de minha vida.

Mas farei que elas percam a importância diante dos gestos de amor que encontrei.


Talvez eu não tenha forças para realizar todos os meus sonhos.

Mas jamais me irei considerar um derrotado.


Talvez em algum instante eu sofra uma terrível queda.

Mas não ficarei por muito tempo olhando para o chão.


Talvez um dia o sol deixe de brilhar.

Mas então irei banhar-me na chuva.


Talvez um dia eu sofra alguma injustiça.

Mas jamais irei assumir o papel de vítima.


Talvez eu tenha que enfrentar alguns inimigos.

Mas terei a humildade para aceitar as mãos que se estenderão na minha direção.


Talvez numa dessas noites frias, eu derrame muitas lágrimas.

Mas não terei vergonha por esse gesto.


Talvez eu seja enganado inúmeras vezes.

Mas não deixarei de acreditar que em algum lugar alguém merece a minha confiança.


Talvez com o tempo eu perceba que cometi grandes erros.

Mas não desistirei de continuar trilhando o meu caminho.


Talvez com o decorrer dos anos eu perca grandes amizades.

Mas irei aprender que aqueles que realmente são meus verdadeiros amigos nunca estarão perdidos.


Talvez algumas pessoas queiram o meu mal.

Mas irei continuar plantando a semente da fraternidade por onde passar.


Talvez eu fique triste ao concluir que não consigo seguir o ritmo da música.

Mas então, farei que a música siga o compasso dos meus passos.


Talvez eu nunca consiga ver um arco-íris.

Mas aprenderei a desenhar um, nem que seja dentro do meu coração.


Talvez hoje eu me sinta fraco.

Mas amanhã irei recomeçar, nem que seja de uma maneira diferente.


Talvez eu não aprenda todas as lições necessárias.

Mas terei a consciência que os verdadeiros ensinamentos já estão gravados em minha alma.


Talvez eu fique deprimido por não ser capaz de saber a letra daquela música.

Mas ficarei feliz com as outras capacidades que possuo.


Talvez eu não tenha motivos para grandes comemorações.

Mas não deixarei de me alegrar com as pequenas conquistas.


Talvez a vontade de abandonar tudo se torne a minha companheira.

Mas ao invés de fugir, irei perseguir o que mais desejo.


Talvez eu não seja exatamente quem gostaria de ser.

Mas passarei a admirar quem sou.

Porque no final saberei que, mesmo com incontáveis dúvidas, eu sou capaz de construir uma vida melhor.
E se ainda não me convenci disso, é porque como diz aquele ditado: “ainda não chegou o fim”,

Porque no final não haverá nenhum “talvez” e sim a certeza de que a minha vida valeu a pena e eu fiz o melhor que podia.

Aristóteles Onassis


Blog EntryMar 27, '12 1:23 PM
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Quadras da minha solidão


Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...

 

Alda Lara

In Poemas 1966

 


Blog EntryMar 26, '12 6:36 PM
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Poemas ao Vento

Sopra o vento, sopra o vento,
Sopra alto o vento lá fora;
Mas também meu pensamento
Tem um vento que o devora.
Há uma íntima intenção
Que tumultua em meu ser
E faz do meu coração
O que um vento quer varrer;

Não sei se há ramos deitados
Abaixo no temporal,
Se pés do chão levantados
Num sopro onde tudo é igual.

Dos ramos que ali caíram
Sei só que há mágoas e dores
Destinadas a não ser
Mais que um desfolhar de flores

 
Fernando Pessoa
 
 

Blog EntryMar 19, '12 9:00 PM
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Amigos

 

 

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.

Não percebem o amor que lhes devoto

e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor,

eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos,

enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor,

que tivessem morrido todos os meus amores,

mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos

e o quanto minha vida depende de suas existências ...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.

Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade,

não posso lhes dizer o quanto gosto deles.

Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crónica e não sabem

que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,

embora não declare e não os procure.

 

  

E às vezes, quando os procuro,

noto que eles não tem noção de como me são necessários,

de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital,

porque eles fazem parte do mundo que eu,

tremulamente, construí,

e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.

Se todos eles morrerem, eu desabo!

Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.

E me envergonho, porque essa minha prece é,

em síntese, dirigida ao meu bem estar.

Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos,

cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim,

compartilhando daquele prazer ...

Se alguma coisa me consome e me envelhece

é que a roda furiosa da vida

não me permite ter sempre ao meu lado,

morando comigo, andando comigo,

falando comigo, vivendo comigo,

todos os meus amigos, e, principalmente,

os que só desconfiam

- ou talvez nunca vão saber -

que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

Vinicius de Moraes


Blog EntryMar 16, '12 6:57 PM
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Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar

e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Viriato da Cruz

No reino de Caliban II - antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa

 

 


Blog EntryFeb 20, '12 8:02 AM
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A Cartilha Maternal é uma obra de natureza pedagógica, escrita pelo poeta e pedagogo João de Deus e publicada em 1876, que se destinava a servir de base a um método de ensino da leitura às crianças.

Attachment: Cartilha Maternal- João de Deus.pdf

Blog EntryJan 29, '12 8:30 AM
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O que nos resta

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes, 1962 

 


Blog EntryJan 29, '12 8:11 AM
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Na ilha por vezes habitada

 

 

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago
 
 

Blog EntryJan 8, '12 9:42 AM
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Ser forte, não é colecionar vitórias, mas não se sentir fracassado, ante o que pareça derrota.

A força verdadeira não se dimensiona pelo impacto demolidor dos punhos, mas pela ternura construtora das mãos que acariciam e dos dedos que confortam.

Ser forte, não é ter a arrogância de não chorar, mas ter a coragem de parar o próprio pranto a fim de consolar as lágrimas de quem mais está sofrendo.

Ser forte, não é caminhar impávido com a coroa de louros à fronte, mas é cair coroado de espinhos e fazer tudo para levantar-se e para ajudar a que o "irmão" se levante.

Ser forte, não é não perceber a escuridão que ficou atrás da última lâmpada que se apagou quando se teve de sair do sonho, mas é a bravura de acender nova chama, de ligar de novo a luz, de abrir a janela da alma para sentir outra vez a claridade da manhã.

Ser forte, não é ser insensível, mas sentir, compreender aquilo que não tem palavras para completamente traduzir e interpretar.

Muitas vezes se exige mais força para proteger a pétala do que para derrubar a árvore imensa.

Bendita seja a força do ombro amigo que ampara a cabeça cansada, dos braços que se enlaçam para enfrentar a fúria dos acontecimentos e o uivar do furacão, do coração que reanima no momento difícil, do pensamento que não se entrega, da alma que não pára de lutar.

Ser forte é oferecer a própria fraqueza para somar-se a fraqueza de quem se feriu e, juntas,as duas debilidades se farão uma verdadeira e brava força que nada e ninguém conseguirá dobrar.

Ser forte, é mesmo quando com medo, procurar transmitir coragem; é, mesmo na dúvida, transmitir a verdadeira fé; é fechar a porta ao pesadelo e abrir o ser por inteiro ao sonho maior que se chama esperança.

Ser forte, é às vezes, sair catando os pedaços do corpo pisado e da alma marcada, e juntá-los todos, com bravura e carinho, para ficar de novo de pé, com o rosto molhado pela chuva que cai e beijado pelo vento suave que passa.

Ser forte

é ser gente e ser gente,

é ser forte…

Rhámar I´Húmistan

 


Blog EntryDec 31, '11 3:07 PM
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Desejo
 
 
Desejo primeiro que ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para o manter de pé.

Desejo ainda que seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Sirva de exemplo aos outros.

Desejo que, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é desinteressante e o riso constante é insano.

Desejo que descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, se sentirá bem por nada.

Desejo também que plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, sim, que tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por si,
Mas que se morrer, possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Victor Hugo

 


Blog EntryDec 27, '11 11:53 AM
for everyone

 

Mensagem de Fim de Ano

 

Mais um ano chega ao fim.
Para alguns marcados por extrema
alegria,
Para outros embargados de dor.

Nesse momento é hora de reflectir.

Como foi o nosso ano?
Conseguimos conquistar os nossos ideais?
Será que realmente lutámos por eles?

Demos o abraço que o nosso irmão tanto queria, ou virámos as costas não nos importando com ele?
Pedimos perdão pelas nossas falhas, ou o orgulho não deixou?
Fomos amigos e companheiros com o nosso colega de trabalho, ou simplesmente fazíamos nosso trabalho sem nos importar com o outro tão perto de nós? Estivemos presente na vida de nossos filhos, de nossos
maridos, esposas, amigos?

Enfim, depois de tantas perguntas vem-nos mais uma pergunta:
Será que teremos uma outra oportunidade?
Para um pedido de desculpas,
Uma reconciliação,
Uma dúvida não respondida
Um amor encontrado
Uma dor desaparecida
Um grito de alívio
Um beijo, um abraço que não foi dado?

Meu Deus... nos dê forças, nos dê saúde, nos dê a oportunidade de fazer o que deveria ser feito, reparar os nossos erros, de sermos amigos, companheiros, compreensivos,
mãe, pai, filha, filho, esposa, esposo.

Dê-nos a oportunidade de viver cada vez mais o amor verdadeiro de Cristo.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 


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